O final de ano evoca a fantasia da “família perfeita”. Chegamos àquela época em que existe uma pressão cultural imensa para que as festas sejam uma espécie de comercial, com todos sorrindo, abraçados e felizes. Em que as redes sociais se enchem de mensagens de paz, amor e união, em que todo mundo quer compartilhar aquela foto de uma mesa farta, cheia de pessoas em volta celebrando o ano que passou e agradecendo por tudo o que aconteceu.
Entretanto, para muitos, essa época é sinônimo de ansiedade e confronto, simplesmente pela ideia de que encarar a reunião familiar acende um alerta de batalha no sistema nervoso. Mas por que isso acontece? O que nos leva a ter esses sentimentos?
A família é nossa primeira célula social, mas também é o palco onde as mágoas não resolvidas, os ressentimentos antigos e as diferenças de visão de mundo se encontram em pleno vapor. E quando acrescentamos o fator “parentes tóxicos”, aqueles que fazem perguntas invasivas, tecem comentários críticos ou simplesmente drenam sua energia, o que deveria ser um momento de celebração se transforma em um teste de resistência emocional. O ponto aqui não é banir ninguém, mas entender como podemos nos proteger dentro de um ambiente no qual não nos sentimos totalmente seguros.
A Ilusão da proximidade forçada
As festas de fim de ano forçam uma proximidade que, muitas vezes, passamos o ano inteiro evitando. O que chamamos de “tóxico” na dinâmica familiar, em termos psicológicos, é o padrão de relacionamento que vai minando sua autoestima, invalidando seus sentimentos ou violando seus limites repetidamente. E o mais cruel é que, por serem família, sentimos uma obrigação social e emocional de “aguentar” ou “relevar”.
É crucial reconhecer a legitimidade do seu desconforto, pois não é frescura nem falta de espírito natalino, mas sim o seu modo de se defender de uma dinâmica desgastante. A tensão em feriados não surge do nada. Ela é o resultado de expectativas não ditas e de conflitos pré-existentes que são intensificados pela obrigatoriedade da convivência.
Mas como você pode se blindar emocionalmente nessas ocasiões? Pensando nisso, separei algumas sugestões que você pode levar em consideração na hora de se preparar para as confraternizações:
1. Estabeleça uma “saída de emergência”
Antes de entrar, tenha um plano. Quanto tempo você pode passar ali mantendo seu equilíbrio? Duas horas? Quatro? Comunique esse limite a um aliado (seu parceiro, um irmão de confiança) e a si mesmo.
2. Torne-se desinteressante
Essa técnica poderosa, conhecida pelos especialistas como Gray Rock (Rocha Cinzenta), é recomendada para lidar com pessoas que se alimentam da sua reação. A ideia é que você se torne emocionalmente desinteressante, através de respostas curtas, neutras, desviando o foco para temas mais genéricos como o clima, a comida ou algum filme e série que você assistiu. Quando você não engaja no drama, você tira o poder do provocador.
3. Não mude o roteiro da sua vida
Parentes “tóxicos” adoram fazer comentários invasivos sobre sua vida amorosa, peso, carreira ou decisões pessoais. Lembre-se de que você não precisa dar satisfação de suas escolhas e modo de vida para ninguém. Logo, se algum desses tópicos surgirem seja breve e redirecione a resposta para outro assunto. Entrar em uma discussão ou se deixar afetar, não irá te levar a nada produtivo.
4. Tenha uma rede de apoio
Durante a festa, ancore-se nas pessoas que te fazem bem. Passe mais tempo conversando com quem te acolhe e te entende. Busque um aliado (o primo querido, a tia compreensiva) com quem você possa trocar um olhar de “estamos juntos nessa”. O apoio social é um acelerador na recuperação do estresse. Ter alguém para validar sua experiência transforma esse momento de desgaste em algo gerenciável.
5. A decisão mais difícil: estar ou não estar?
A verdade é que a obrigação de comparecer não é uma lei. O final de ano é um convite para estarmos com quem amamos, e não com quem nos maltrata. Por isso, priorizar sua saúde mental pode significar comparecer por pouco tempo, escolher não ir a um dos eventos ou até mesmo criar tradições que não envolvam a fonte de tensão.
A terapia ajuda a lidar e compreender essas emoções, permitindo que você enxergue o que te incomoda. Aceitar que sua família é imperfeita, que você não pode mudar o comportamento dos outros e que sua paz vale mais que a performance social é um dos maiores presentes que você pode se dar nesta época do ano. Até porque, no fim das contas, a ceia de Natal passa, a confraternização acaba, mas a forma como você cuida de si mesmo permanece.