Gaslighting: vamos parar de chamar as mulheres de loucas?

Gaslighting: vamos parar de chamar as mulheres de loucas?

No mês das mulheres, vemos muitas empresas fazendo ações de conscientização da igualdade de gênero. Observamos também autores, muitos dos quais homens, exaltando o papel da mulher na sociedade. Tudo é bom e muito válido, mas fico sempre com a impressão de que o assunto perde um pouco seu impacto nos meses seguintes. Percebo isso nas próprias relações sociais. As piadinhas machistas ainda acontecem e nós, mulheres, ainda brincamos umas com as outras nos chamando de “loucas”. Isso tem me deixado pensativa.

Por trás de cada caso – dos mais simples e reconhecíveis, até os mais complexos e desafiadores – existe uma pessoa que está sofrendo por não estar à vontade com a realidade percebida ao seu redor. Eu não trato “loucos”, e tampouco acredito que qualquer psicólogo ou psiquiatra em pleno século 21 ainda o faça. Sim, pois desde o berço de ambas as disciplinas, evoluímos muito em nossa compreensão do psiquismo humano. O que antes era chamado de “loucura” ou de “melancolia”, por exemplo, hoje pode ser compreendido como esquizofrenia ou depressão. Tudo depende das evidências clínicas apresentadas pelo paciente.

Como psicóloga clínica, meu trabalho é tratar distúrbios e transtornos mentais. Utilizando técnicas comprovadas de psicoterapia e o auxílio da medicina moderna, procuro entender a percepção de mundo do outro, ajudando-a a desconstruir suas distorções cognitivas. O processo envolve um trabalho constante, difícil e doloroso, de fala e escuta qualificada, com o objetivo de elaborar estratégias eficazes de enfrentamento ao sofrimento psíquico.

Loucos vs. loucas

Apesar dos avanços científicos, ainda usamos popularmente o termo “loucura”, em especial quando queremos ridicularizar ou menosprezar o outro. Dizemos coisas como “cê tá louco!” quando nos topamos com uma situação difícil de aceitar. Entre as mulheres, no entanto, o termo adquire uma conotação mais pejorativa. Embora a expressão “cê tá louca!” só tenha uma vogal de diferença em relação ao equivalente masculino, o contexto no qual ela se insere costuma ser mais ofensivo e sutil.

Para perceber as diferenças, proponho um breve exercício mental. Tente se lembrar da última vez que você chamou um homem de louco, num contexto de brincadeira. Agora faço o mesmo com uma mulher. Pronto? Em muitos casos iremos notar que taxamos o homem de louco quando ele está propondo algo oposto aos nossos interesses. Não estamos questionando o indivíduo em si, mas a sua proposta descabida. Porém, quando chamamos uma mulher de louca, o rótulo costuma ser aplicado a ela, como pessoa, e não àquele comportamento específico. São dois pesos, duas medidas.

A diferença de tratamento não ocorre em todos os casos, mas é mais frequente do que imaginamos. Quando nós, mulheres, interpelamos uma outra mulher com expressões como “miga, cê tá louca!”, tendemos a colocar essa pessoa num lugar de desequilíbrio mental digno de chacota, mesmo que momentâneo. E se a mulher em questão tem o costume de contrariar as expectativas do grupo, corre o risco de ser taxada de “maluquinha”. Embora isto seja comum no círculo de mulheres, não causando estranhamento, é mais raro em se tratando de homens.

Mas por que então os homens, geralmente mais agressivos, são menos virulentos uns com os outros em relação à loucura? Parte da resposta talvez esteja na nossa cultura machista, que considera ter uma filha “uma fraquejada” do pai, ou uma mulher de TPM como um ser biologicamente desequilibrado. A cultura popular reflete estas mentiras e retroalimenta o preconceito. Assim, mulheres continuam se chamando de malucas, perpetuando o ciclo.

O abuso existe e tem nome: Gaslighting

O século XX viu grandes avanços nos direitos das mulheres e a cultura popular esteve lá mais uma vez para dar significado e sentido aos acontecimentos. Nos anos 1960, autoras feministas dos EUA começaram a usar o termo “gaslighting” para definir atos psicológicos de violência de gênero. O termo surgiu em 1938, na peça de teatro Gaslight, do dramaturgo inglês Patrick Hamilton. Na trama, um marido manipula sua mulher para ela achar que está ficando louca, de forma a proteger um terrível segredo dele.

A peça fez tanto sucesso que foi adaptada para o cinema em 1944, com Ingrid Bergman fazendo o papel da esposa. O nome da obra faz alusão a um trecho da história, no qual o marido sabota as luzes a base de gás do apartamento de cima, fazendo com elas acendam e apaguem sozinhas. A mulher traz o assunto à tona, mas o marido a convence de que é tudo sua imaginação, uma das características centrais deste tipo de violência.

A partir dos anos 1970, o termo “gaslighting” foi ganhando popularidade e passou a englobar episódios contra mulheres e homens. Hoje, entendemos como gaslighting casos onde uma pessoa manipula a outra para fazer com que ela questione sua memória, percepção, capacidade de tomar decisões ou saúde mental, independentemente do gênero.

Qualquer pessoa pode se tornar vítima de gaslighting, seja em relacionamentos amorosos, no ambiente profissional, entre amigos ou numa dinâmica familiar disfuncional. O que define o abuso não é o ambiente ou os atores, mas sua natureza manipuladora: informações são negadas, omitidas, distorcidas ou inventadas com o objetivo final de desestabilizar, confundir e desorientar a vítima, reduzir sua autoestima e fazer com que ela se torne cada vez mais dependente do abusador.

O gaslighting geralmente começa de forma sutil e com situações de pouca importância, por exemplo, escondendo um objeto da vítima. A tensão vai escalando aos poucos, com o abusador mentindo e negando coisas que ele disse ou fez, mesmo que existam provas em contrário. O abusador também pode inventar eventos que jamais ocorreram, fazendo com que a vítima passe a duvidar do que é real e o que não é. O processo atinge seu ápice quando o abusador questiona a sanidade da vítima, chamando-a de “louca” ou de “desequilibrada”.
O fenômeno nem sempre é acompanhado de violência física, mas as consequências para a vítima são devastadoras e muitas vezes irreversíveis, incluindo transtornos de ansiedade, depressão e, em casos mais graves, suicídio.

Embora não tenhamos estatísticas sobre gaslighting, eu, como psicóloga e autora, tenho duas hipóteses fortes. A primeira é que a prática é subdiagnosticada, uma vez que muitos profissionais de saúde e pesquisadores não reportam os casos como gaslighting por desconhecerem o termo. O fato de ainda não termos uma tradução para o português é um forte indicador disso. A segunda hipótese é que mulheres têm uma probabilidade maior de serem vítimas pelas mesmas razões em que são elas (nós) as vítimas mais frequentes dos demais tipos de violência.

Como lidar com o abuso

A estratégia de enfrentamento mais eficaz contra o gaslighting é se distanciar do abusador. Se isso não é possível, sugiro quatro passos, todos interligados e não necessariamente dispostos em ordem sequencial.

  1. Preste atenção
    Foque nas coisas que o abusador faz, ao invés das coisas que ele diz. O abusador mente, logo a palavra dele não deveria ser levada em consideração pela vítima. Já as ações costumam ser muito mais fiéis à real intenção do autor. Outra vantagem de focar nas ações é que, quando descritas, podem ser interpretadas por outra pessoa, isenta. As falas, por outro lado, caso não sejam relatadas de forma precisa, arriscam perder parte de sua intenção.
  2. Dialogue
    Sim, o diálogo funciona, não para fazer o abusador assumir seu comportamento e pedir desculpas, mas para ajudar a vítima a diferenciar a realidade da ficção. Mesmo que o abusador tenha um raciocínio rápido e um bom domínio da língua, mais cedo ou mais tarde acabará caindo em contradição.
  3. Faça registros
    Tire fotos, grave áudios, anote. Vale tudo. O importante é registrar os eventos assim que eles acontecerem e mantê-los à salvo do abusador. Se os registros forem digitais, guarde também cópias em lugares seguros, como repositórios na nuvem, pendrives ou caixas de email.
  4. Busque ajuda
    Converse sobre o assunto com familiares ou amigos próximos, já que uma tática comum entre abusadores é isolar as vítimas da sua rede de apoio, buscando exercer maior controle e poder sobre ela. Se o abuso acontecer dentro do escritório, acione os canais corporativos de ajuda. A maioria das grandes empresas hoje em dia têm canais semelhantes, com o objetivo de proteger a vítima. Se a situação estiver saindo do controle, procure um psicólogo urgentemente, de preferência um especializado no assunto. Nunca se automedique nem evite o problema. Se for não confrontado, o abuso só irá aumentar.

Como mulher e psicóloga posso dizer que a incredulidade das pessoas que nos cercam pode doer tanto ou mais que as feridas deixadas pelos abusadores. Por isso, neste mês da mulher (e nos outros meses do ano) faça um esforço e evite a palavra “louca” do seu vocabulário quando estiver falando com outra mulher. Ela não é.

E você, vive hoje ou já viveu um relacionamento abusivo, em casa ou no trabalho? Compartilhe esse conteúdo. Vamos conversar. A sua experiência pode ajudar outras mulheres.

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